Cuidados que você precisa ter ao surfar na nova "onda" de apps para transferências internacionais

14/10/2016

Virou festa! A nova descoberta dos brasileiros que residem no exterior e dos pais que no Brasil estão para mandar o dinheiro para eles é: transferir recursos pelos aplicativos de celular que "não fazem transferência". Ficou confuso? Vamos explicar.

 

Algumas startups estão crescendo em progressão geométrica ao oferecer uma modalidade nova de remessas internacionais via smart phone que beiram o milagre: Nada é transferido, não paga IOF, você transfere quanto quiser "desde que até U$ 3 mil por operação", ou desde que "para manutenção de residente". São os "Uber do câmbio", como muitos estão chamando. Outras matérias ja chamaram até de "Tinder do câmbio". Tinder é um app de paquera. Ou seja, tem gente que não está levando a sério um assunto que é bastante sério.


Então minha recomendação é: vamos com calma! Tenham um pouco mais de cautela quando estão falando de operações de câmbio. Não é que nem venda de bugigangas na OLX, não é que nem doar brinquedos na Free Your Stuff ou vender jogos antigos de playstation no Mercado Livre. Não é a mesma coisa que trocar torpedos pro Whatsapp. Nem tampouco semelhante a solicitar um carro na sua porta que vai te deixar em outro local. Não!

 

O Banco Central é bastante rígido e fiscaliza com rigor a compra e venda de moedas, a carga em cartões pré-pagos e, também, a saída de recursos do país. As penas são muito pesadas para quem desrespeitar as leis do Sistema Financeiro Nacional. Você pode hoje estar feliz da vida que encontrou uma nova maneira para "escapar das altas taxas dos bancos", como gostam de defender os blogueiros-viajantes-e/ou-residentes-no-exterior, mas não sabe os riscos que está correndo.


Três alertas que aqui coloco para quem acha que a oitava maravilha do mundo foi criada:

 

  1. Você já percebeu que a maioria destes sites/blogs que estão recomendando essas ferramentas já colocam, de forma conveniente pro visitante, o link para acessar o site e fazer o cadastro? Motivo: eles recebem bonificação para cada cliente indicado. Tem algo errado nisso? Até não tem! Mas mostra que muitos incentivam o uso não exatamente porque testaram exaustivamente os prós e contras do aplicativo e consideram nota 10, mas sim porque vão ganhar em cima de você. Só considero honestos os que usam há bastante tempo e sabem dos prós e contras. Será que eles sabem, por exemplo, que se a demanda de americanos por "vender" moeda está baixa, sua transferência de Reais Brasil-EUA pode não levar dias, mas sim, semanas?

  2. Preste muita atenção: o fato de o aplicativo estar dizendo que "você pode transferir até R$ 9.999,99 por operação" não quer dizer que, com isso, você encontrou a solução para contornar limites de operação impostos pelas casas de câmbio e corretoras, pois agora é só fazer o simples raciocínio "uau! Basta dividir meus R$ 50.000,00 em 5 dias e tá resolvido meu problema! E eu me incomodando com a burocracia dos bancos!". Não pessoal! Entendam que, ao criar esta "limitação", os aplicativos nada mais estão fazendo do que jogar para você a responsabilidade de fazer ou não fazer mais câmbios do que o Banco Central Permite! Os agentes de câmbio impõem limites porque a autarquia federal assim exige!

  3. Os bancos e os agentes envolvidos ganham muito dinheiro cobrando taxas nas remessas internacionais? Pois bem, as startups de money transfer vão faturar muito mais dinheiro em ganho de escala, com o numero gigantesco de operações que vão fazer ao apresentar seu método inovador. "Mas assim tirando menos dinheiro do bolso de cada um". Sim, mas adicionando muito mais RISCO para os que optarem por esta tecnologia. Pelo menos por enquanto.

 

Se você chegou a este ponto do texto e não me conhece já deve estar pensando: "O cara trabalha com câmbio, à moda antiga, imagina se não estaria tentando encontrar defeitos nestas novas tecnologias para preservar seu negócio." Certo? Errado! Antes de você continuar interpretando meu objetivo ao fazer esta publicação, já me adianto: Meu trabalho é de assessorar meus clientes sobre qual a melhor alternativa quando eles precisam de câmbio, qualquer tipo. Seja para que consigam taxas mais baratas, seja para receberem papel moeda mais rápido ou seja também para tomarem as decisões mais inteligentes e de menor risco! Não vejo problema em sugerir uma alternativa para um cliente, a melhor delas, mesmo que esta só possa ser utilizada com outra empresa do setor, fora do meu pool de parceiros.

 

Pesquise sobre o assunto! Entenda exatamente como funciona o aplicativo, leia os disclaimers (aquela parte com letras pequenas), leias as observações e, na duvida, consulte um especialista. Por especialista não falo de profissionais de câmbio apenas. Consulte um advogado tributarista, um contador experiente. Veja a opinião deles a respeito. Leia a legislação de câmbio antes de acreditar no discurso de que "agora tudo é possível sem pagar taxas abusivas". Eu mesmo ainda estou pesquisando sobre esta nova onda tecnológica da minha área. Já inclusive troquei emails com as principais Startups e até liguei para seus escritórios nos EUA/UK para solicitar mais informações. Porém, solicitei informações técnicas, mais profundas, sobre os benefícios e os riscos, questionando "mas o que fazer caso eu tenha problemas com...". As respostas até o momento foram: silêncio. Se meu contato fosse questionando apenas "como faço para enviar dinheiro", a resposta seria imediata e muito simpática. Já vi apps que em suas observações nos websites colocam "Não fazemos câmbio, apenas aproximamos pessoas." para se isentarem de responsabilidade. Conveniente, não? É que ao trabalhar com moeda estrangeira, as responsabilidades são muitas! Assim fica fácil.

 

Reafirmo: Quando estiver seguro que meus clientes não terão problemas e sim apenas benefícios em seus futuros câmbios se entrarem nessa "onda", serei o primeiro a recomendar e elogiar publicamente estas novidades. Mas não antes disso. Eu sou um dos maiores defensores do livre mercado, mas desde que as leis relacionadas sejam respeitadas, que as pessoas saibam os prós e contras e, principalmente, os RISCOS da nova tecnologia. Vale a pena você passar os próximos 12 meses fazendo transferências milagrosamente mais baratas pra daqui 1 ou 2 anos cair na malha fina da Receita Federal, perdendo tempo e dinheiro no recurso?

 

Por fim, respondo ao questionamento que muitos devem estar fazendo após ler toda minha redação sobre o assunto: "Quais são então, no momento, as alternativas confiáveis quando falamos de remessas?". Minha recomendação: international wire transfer via SWIFT, para grandes volumes (>= USD 3k). Moneygram ou Translink Western Union, para envios urgentes e pequenas transferências. Paypal e Xoom também são boas ferramentas para valores menores.


Tenham todos um bom fim de semana.

 

Att

Gustavo Candiota

Diretor GC Prime Câmbio Inteligente